Artigos e Resenhas

 

A locomotiva e as plataformas da vida

* Walter Calheiros

 

Na minha infância residi na base de uma barreira, bairro pobre, acima da linha do trem. Minha bisavó sempre vaticinava: televisão de pobre é janela de trem, fazendo uma analogia sobre os diversos quadros que passavam velozes a nossa frente, janela após janela, com seus capítulos rápidos formatados pelos vagões do trem, complementando toda a história formada pela composição, como uma verdadeira novela da vida. A barreira se transformava na arquibancada do grande teatro, onde, sistematicamente, corríamos para nos deleitar com o espetáculo proporcionado pela locomotiva e seus vagões, preenchendo, transformando e transportando de forma metafórica e filosófica o estilo de viver proporcionado pela infância.

A infância é o período compreendido desde o nascimento até os doze anos. Muitas transformações físicas, psicológicas e sociais acontecem mediadas pela cultura. Durante o desenvolvimento aprendemos a engatinhar, andar, falar, ler, escrever e interagir com pessoas. Na infância não temos discernimento sobre a caminhada da vida. Apenas vivemos e aproveitamos os momentos de forma saudável, nos morros, nos mangues, nos jogos de várzeas, nas construções de brinquedos artesanais. Não temos idéia da caminhada temporal, dos percalços da vida, dos degraus íngremes, da força destruidora que o tempo estabelece. Do pedestal fácil e tranqüilo da infância curtimos serenamente os momentos proporcionados pela vida. Não passa pela cabeça as dificuldades, os problemas, os conflitos. Apenas vivemos.

A partir da conquista racional do crescimento mental evoluímos para a percepção da realidade. Começamos a visualizar a caminhada do dia-a-dia, aprendendo com as experiências vividas em cada plataforma ou estação utilizada durante nossa transição terrena. Até então, sem o conhecimento racional do desenvolvimento da vida, só entendemos o nascimento e a infância de forma volátil. Dois momentos mágicos ou plataformas, que passam de forma irresponsável por parte do “eu”, porém com muita responsabilidade por parte de pais e pedagogos (Paidéia = construir o homem e o cidadão), pois é nessa plataforma que efetivamos a nossa personalidade, determinante para a caminhada futura em outras plataformas.

No final da infância, também chamada de puberdade, chegamos à adolescência, fase de transição entre a infância e a idade adulta, onde a vida começa a abrir os horizontes para a percepção racional do dia-a-dia, caracterizada por mudanças biológicas e psíquicas. Nesta fase definimos os princípios da nossa personalidade. É o princípio da responsabilidade, do estabelecimento da profundeza de viver, do poder racional de decisão do “eu”, do conhecimento pleno das plataformas a serem trilhadas ou simplesmente poder de escolha sobre a vida que queremos ter. Nessa plataforma a vida nos dá o dom da decisão: Que trem devemos pegar? Que lugar devemos ir? Com quem iremos? Que estação devemos parar?

É nessa plataforma que começamos a despertar para a vida sentimental, quando desabrochamos para a afetividade a dois. É um momento revestido de grande importância, pois será crucial para uma vida saudável. Logo após surge a maioridade, com o grande passo da escolha profissional, base para a sustentação individual e familiar durante toda a vida. Posteriormente adentramos no casamento e na efetivação deste. Nesta plataforma, muitas vezes chegamos atrasados ou erramos de trem, seguindo por caminhos não traçados anteriormente, enfrentando os riscos advindos de planejamentos errados. A plataforma seguinte é a efetivação da vida afetiva, onde, independente do atraso ou do embarque na plataforma ou trem desejado, temos que enfrentar os erros (ou acertos) das decisões tomadas. A penúltima plataforma é a da maturidade, talvez a mais importante, pois será nela que colheremos todos os frutos plantados durante a nossa viagem. Nessa plataforma a colheita poderá ser boa ou ruim, dependendo de como plantamos e regamos os caminhos traçados para a nossa vida.

Temos que entender que, no decorrer de nossa vida passamos por inúmeras plataformas. Cada uma com suas peculiaridades, seus momentos, suas nuances. Na chegada em cada uma delas é importante avaliar a caminhada e discernir sobre a escolha do caminho melhor. Os ensinamentos da vida nos dão o discernimento da escolha entre o caminho certo e o errado. Neste sentido não existe apenas uma escolha. Em cada plataforma de nossas vidas existem várias opções, onde temos apenas que escolher. É como um jogo em que superamos etapas. Vence o jogo quem escolher o caminho certo, após a adentrarmos na locomotiva. A locomotiva apenas segue o caminho traçado pela vida. Nesse sentido um pequeno atraso, uma distração ou um momento de desatenção poderá ser determinante para a definição do caminho ou escolha certa.

A última (penúltima?) plataforma ainda não conhecemos. A chegada nessa estação poderá estar perto ou longe. Portanto, não vulgarizemos os momentos de nossas vidas. Assim como uma viagem de trem, o decorrer da nossa vida está pautado por momentos, por estações, onde devem ser tomadas decisões a partir da chegada nas várias plataformas. Cada segundo será determinante para uma escolha certa. Cada minuto poderá fazer a diferença. Cada hora será crucial para a definição da vida. Cada dia será fundamental para uma maturidade saudável. Cada ano poderá ser uma eternidade que será refletida, de forma incessante, em toda a extensão temporal da nossa vida na outra dimensão, futura plataforma. Ainda não conheço a próxima plataforma. Nesse sentido a serenidade e a firmeza espiritual serão determinantes para alcançarmos a locomotiva certa.

Professor Universitário; Pedagogo; Administrador Escolar; Educador Físico; Especialista em Gestão Escolar e Mestre em Educação. Professor da Faculdade de Alagoas e do Instituto Federal de Educação.

TEMÁTICA 1:

 

O ESPORTE PARA TODOS EM ALAGOAS

Dr. Edison Francisco Valente

 

A história institucional do Programa Esporte Para Todos em Alagoas iniciou em 1977, após a assinatura do acordo entre o Departamento de Educação Física e Desportos-DED/MEC e o Movimento Brasileiro de Alfabetização-MOBRAL para o desenvolvimento de uma campanha esportiva de massa em todo o Brasil, denominada de Campanha Esporte Para Todos. Diante desse acordo, coube ao MOBRAL a responsabilidade de coordenar, dirigir e organizar o EPT no território brasileiro.

No primeiro ano, o MOBRAL, por falta de uma estrutura mais concreta, não conseguia desenvolver uma campanha que se adequasse à todas as regiões do país. Na verdade o que acontecia dependia de grandes sacrifícios de agentes voluntários, denominados de Voluntários Esportivos, os quais se transformaram em verdadeiros “carregadores de sacos de bolas de finais de semana”. Era uma prática ativista do “fazer por fazer”, sem levar em conta os próprios objetivos da campanha.

Em 1978, após os I e II Cursos de Treinamentos de Dirigentes Técnicos do Esporte Para Todos, realizados em Salvador-Bahia e no Rio de Janeiro, com a participação de representantes do MOBRAL-AL, o EPT em Alagoas passou a ser desenvolvido em parceria com a Secretaria da Educação e Cultura, por intermédio da Diretoria de Educação Física e Desportos, cujo representante era o Professor Verter Paes Cavalcanti.

Essa parceria, entre o MOBRAL/AL e a SEC/AL, não deu certo em função de que essas instituições reivindicavam um paternalismo exacerbado sobre o EPT, fator esse causador de uma série de problemas absorvidos entre ambas o que motivou para o desenvolvimento de programas isolados do EPT em Alagoas.

Em 1979, o EPT passou a estar vinculado à SEED/MEC. Nesse mesmo ano foi realizado, no mês de outubro, o “III Curso de Publicidade e Treinamento de Dirigentes Técnicos do Esporte Para Todos”, em Salvador. Desse curso participaram, 35 profissionais de Educação Física de todas as Unidades Federadas e publicitários de vários Estados brasileiro. O corpo docente foi composto tanto por professores brasileiros, quanto por professores alemães. Estiveram como representantes de Alagoas os Professores Verter Paes Cavalcanti e Edison Francisco Valente. Após esse curso, segundo orientação do MEC, a SEC/AL assumiu definitivamente a responsabilidade de desenvolver um programa de Esporte Para Todos em Alagoas, com base em uma realidade localista, com ações planejadas, cujas responsabilidades passaram a ser distribuídas entre agentes estaduais e municipais.

Em 1980, foi criada na Diretoria de Educação Física e Desportos da SEC/AL, na gestão do Prof. Napoleão Portela, a Coordenadoria de Esporte Para Todos sob a Coordenação do Prof. Edison Francisco Valente.

Atendendo a uma solicitação do então Secretário da Educação e Cultura do Estado de Alagoas, José Medeiros, foi criado o programa “Lazer na Escola”, com o objetivo de estimular a comunidade escolar, em conjunto com a comunidade em geral, para a prática de atividades de lazer em períodos de férias escolares. Objetivou, ainda, dar assistência à comunidade escolar no que diz respeito à merenda na escola, assistências médica, odontológica, psicopedagógica e social, bem como estimular para que essas comunidades despertassem o interesse por práticas de atividades físicas, desportivas e recreativas, como uma forma de ocupação do tempo ocioso do educando com atividades específicas que interferissem na saúde e na qualidade de vida do mesmo e prevenção contra o adoecimento, para que esse educando ao retornar ao período de aulas, pudesse dar continuidade ao desenvolvimento do seu processo de aprendizagem, sem que houvesse um retrocesso do semestre anterior.

O programa “Lazer na Escola”, foi uma atitude político-educacional da Secretaria da Educação e Cultura,  envolvendo a Coordenadoria de Esporte Para Todos, da Diretoria de Educação Física, e demais departamentos e coordenadorias vinculadas à SENEC, após a constatação de resultados de uma pesquisa realizada, nesse ano, de que o aluno, no período em que estava freqüentando a escola e com acesso à merenda escolar, apresentava uma ascensão no seu rendimento escolar. No entanto, quando esse educando entrava para o período de férias e, após isso, retornava às suas atividades escolares, percebia-se que havia um decréscimo no desenvolvimento do seu rendimento escolar, possivelmente proveniente de uma alimentação deficiente.

Diante dessas constatações, foram programadas atividades, para esses educandos, com o objetivo de mantê-los espontaneamente na escola, durante o dia todo, para a ocupação da ociosidade existente no tempo disponível de seus períodos de férias escolares. Essas atividades foram planejadas com atividades esportivas, recreativas e culturais, inclusive com projeções de filmes após o almoço, com passeios turísticos de trem ou de ônibus, com visitas a instituições militares e educacionais, dentre outras.

Havia, ainda, um acompanhamento médico, odontológico e psicopedagógico, durante o ano todo, e a escola permanecia aberta à comunidade, inclusive, nos finais de semana e feriados.

A merenda, no período do Programa Lazer na Escola, era servida no café da manhã, quando o aluno chegava à escola as 7h30, lanche as 10h00, almoço as 12h00, lanche as 15h00 e no encerramento das atividades as 17h00.

Muitas parcerias foram formadas para o atendimento ao Programa Lazer na Escola, com prefeituras municipais, empresas privadas, corporações militares, a Universidade Federal de Alagoas e outras Secretarias do Estado de Alagoas. O projeto piloto do I Lazer na Escola foi implantado no Centro Educacional Antonio Gomes de Barros – CEAGB.

Nesse mesmo ano, a Universidade Federal de Alagoas, no Curso de Educação Física, implantou a disciplina Esporte Para Todos, sob a responsabilidade do Professor Verter Paes Cavalcanti, de onde surgiram muitos voluntários.

O programa Lazer na Escola tomou um vulto muito grande, espalhando-se para a grande maioria dos municípios alagoanos, passando a ser desenvolvido nos meses de janeiro e julho. A partir do II Lazer na Escola, em 1981, houve um envolvimento maior da comunidade em que, além dos alunos das escolas estaduais, participavam também os pais desses alunos e pessoas da comunidade em geral, os quais se envolviam do planejamento e execução das atividades. Dessa forma, esse programa atingiu mais de 55.000 pessoas. A SENEC passou a perder o controle desse programa. As atividades passaram a ser planejadas de forma localista, dentro e fora da escola, e de acordo com as necessidades, características culturais e anseios dessas comunidades.

A base desse programa era a capacitação de recursos humanos, com a participação de Agentes Esporte Para Todos Municipais, Professores, Líderes Comunitários, Médicos, Odontólogos, Psicólogos, Assistentes Sociais, Pedagogas, Professores e Acadêmicos de Educação Física, Militares, Familiares dos Alunos das Escolas Estaduais e Municipais, empresários, dentre outros segmentos.

Além disso, muitos outros eventos, voltados para a saúde e a qualidade de vida, a ocupação do tempo de lazer com atividades saudáveis visando a prevenção de doenças e o estímulo à utilização dos espaços públicos e comunitários, foram desenvolvidos. A utilização da praia, das lagoas, rios, praças, ruas e demais logradouros públicos serviram de espaços para a prática de atividades programadas pelo EPT. Por exemplo, na Massagueira foram realizadas corridas – regatas - de canoas movidas a mão, regatas de canoas movidas a remos, manhãs de lazer, festas e eventos diversos, como a festa do pato sendo abrilhantada pela Banda de Pífanos de Marechal Deodoro. Em Maceió, foi realizada a Natação Para Todos, na Praia dos Sete Coqueiros, local onde foram realizadas atividades dentro e fora da água. Na água, foram realizadas atividades como caça ao tesouro, com melancias cobertas com óleo, natação, pólo aquático, hidroginástica, acrobacias, travessias, dentre outras. Na areia da praia foram realizados concursos de escultura, jogos de praia, atividades recreativas para crianças, jovens e adultos. Normalmente, o encerramento era feito com base em uma determinada festividade local como o São João, o Natal com a chegada do Papai Noel, o Carnaval, tudo isso acompanhado e de muito som e com  muito frevo. Realmente havia uma mobilização muito grande em torno desse tipo de evento.

Outro evento de grande porte realizado em toda a orla da Pajuçara foi “Esporte Para Todos ao Alcance de todos”. Eram manhãs de lazer realizadas com a integração de várias entidades como: Secretaria de Esportes da Prefeitura de Maceió, Universidade Federal de Alagoas, Capitania dos Portos, 59º BIMTz, Colônia de Pescadores Z1, escolas da rede estadual e municipal, coordenada pela Coordenadoria de Esporte Para Todos da SENEC. O evento era programado baseado nas propostas das entidades envolvidas e, normalmente, contava com uma participação aproximada em 25.000 pessoas.

 

AS NOVAS ESTRUTURAS DO EPT BRASILEIRO E ALAGOANO

 

Com a promulgação da Portaria MEC nº 522, de 01/09/81, aprovando o novo Regimento Interno da SEED/MEC, nova organização estrutural foi adotada. E, dentro dessa organização, foi criada a Subsecretaria de Esporte Para Todos – SUEPT/SEED/MEC, tendo o seu primeiro Subsecretário O Cel. Newton Heráclio Ribeiro, cuja equipe reestruturou as ações do EPT no Brasil e criou a Rede Esporte Para Todos. A comunicação via mídias – artesanais e eletrônicas – voltadas para o apoio, o estímulo e a realização de eventos comunitários foram eleitos como elos importantes para o desenvolvimento do EPT no Brasil nessa nova etapa. O Agente Municipal/Local era o próprio Movimento EPT, enquanto elemento de mobilização, divulgação e multiplicação de suas propostas.

Em face desse período de transição e de replanejamento na SUEPT, houve uma decadência das ações no Estado de Alagoas, como reflexo advindo da política nacional, uma vez que a própria Coordenadoria do EPT em Alagoas dependia de repasses de recursos da SUEPT, do norteamento de sua política e, como não podia deixar de ser, também passou por reestruturações e por novos planejamentos.

As políticas públicas programadas nessa Subsecretaria, ampliaram o universo de ações do EPT no Brasil. A ênfase que era dada anteriormente aos eventos de impacto, sustentação e permanente, passaram a dar espaços aos treinamentos de recursos humanos de agentes locais (profissionais da Educação Física e líderes comunitários), à comunicação via mídia artesanal e eletrônica, à integração com empresas e órgãos governamentais. As mídias artesanais mais utilizadas foram faixas e o boca-à-boca e obedecendo as características regionais foram criadas a jangada Esporte Para Todos, em Maceió, inclusive sendo capa da Revista Comunidade Esportiva, e as canoas de Penedo e Lagoa Mundaú e Manguaba, em Maceió, com o slogan Esporte Para Todos em suas velas. As mídias eletrônicas mais utilizadas foram a rádio, a televisão, o Jornal, Revista Comunidade Esportiva, o boletim EPT e o trafego de fitas gravadas.

Além disso, passaram a ser, também, objetivos do EPT nacional: integração do EPT com entidades que desenvolvem ações comunitárias como o MOBRAL, o Sistema 5 S (SESC, SENAC, SESI, SENAI, SENAT), comunidades e pessoas. O estímulo à pesquisa na Educação Física, Esportes e Lazer, a importância do planejamento e da avaliação das ações e da regionalização do EPT foram metas prioritárias nessa nova etapa da SUEPT.

Em 1982, diante dessa política nacional, em Alagoas novas ações foram também definidas para a Coordenação de EPT da DEFD/SED/AL. Foi criada a Rede Estadual de Esporte Para Todos, coordenada pela Assessoria de Esporte Para Todos da DEFD/SEC, sob o comando do Prof. Edison Francisco Valente e com a seguinte estrutura: Coordenadoria de Recursos Humanos (Profª Márcia Chaves Valente), Coordenadoria de Eventos (Profª Maria Angélica Peixoto da Rocha), Coordenadoria de Divulgação e Mobilização (Prof. João Batista de Melo) e Coordenadoria de Apoio Técnico Admiistrativo (Prof. José Ednor de Almeida Costa). Nesse mesmo ano, o EPT passou, também, a ser discutido na disciplina recreação, do Curso de Educação Física da UFAL, sob a coordenação da Profª Márcia Chaves Valente, com o objetivo de estimular a pesquisa na Educação Física, na Recreação, nos Esportes Não-Formais e nos Estudos do Lazer. Além disso foram realizados 44 (quarenta e quatro) eventos, dentre esses o III Lazer na Escola, o que totalizou uma participação estimada em 125.000 (cento e vinte e cinco mil) pessoas, distribuídas em parte dos municípios alagoanos.

Após a implantação da Rede Esporte Para Todos no Brasil, consolidada após o Curso de Capacitação de Técnicos Para o Programa Esporte Para Todos, em 1982, na Colônia de Férias do SESC/Jacarepaguá-Rio de Janeiro, o Encontro com Professores Universitários de Recreação, em Natal e em Sorocaba-SP, o Congresso Panamericano e Brasileiro de Esporte Para Todos, em Curitiba e o Encontro de Avaliação do EPT Brasileiro, em São Paulo, com a participação de Agentes Estaduais, Professores de Recreação e Representantes de APEF’s, novas perspectiva foram apontadas para o EPT brasileiro. Nesses eventos, Alagoas se fez representar, participando com bastante destaque, uma vez que o núcleo de EPT desse Estado era tido como um dos mais organizados e ativos do Brasil.

Em Alagoas, o EPT sofreu uma ampla e profunda modificação na sua forma de atuar. A Assessoria de EPT da Diretoria de Educação Física da SENEC/AL, passou a desenvolver uma política de integração, utilizando-se de estratégias para o envolvimento máximo de pessoas e entidades. Para tal, foram realizados eventos de impacto como passeios a pé, ciclísticos, manhãs de lazer, dentre outros, para que pudesse divulgar esse programa e o slogam Esporte Para Todos para o maior número de pessoas possível. Foram realizados, da mesma forma, treinamentos de recursos humanos nos municípios sedes, para a multiplicação de agentes municipais do Estado e a implantação da Rede Estadual de Esporte Para Todos que aconteceu no mês de novembro de 1982, com a participação de 80 Agentes Municipais e Estaduais.

Em 1983, a AEPT/DEFD/SEC sofreu modificações e ficou composta com a seguinte estrutura: Assessor de EPT Prof. Edison Francisco Valente, Coordenadora de Planejamento e Avaliação Profª Maria Angélica Peixoto da Rocha, Coordenador de Apoio Técnico-administrativo Prof. José Ednor de Almeida Costa, Coordenador de Recursos Humanos Prof. José Narciso e Coordenador de Divulgação e Mobilização Prof. João Batista Melo. Essa equipe planejou suas ações até 1985 visando a Municipalização do EPT em Alagoas, Capacitação de Recursos Humanos, a Difusão do EPT em Alagoas e a implantação do EPT no meio rural.

No trabalho voltado para a municipalização/interiorização do EPT em Alagoas, dos 96 municípios alagoanos, foram implantados 75 (setenta e cinco) Núcleos de Difusão, todos ligados às Prefeituras. Em cada núcleo as ações estiveram voltadas prioritariamente para a capacitação de recursos humanos, eventos e para a criação de outros núcleos locais de difusão. Paralelamente ao de capacitação de recursos humanos esse trabalho atingiu os seguintes resultados: realizados 104 (cento e quatro) cursos de capacitação de recursos humanos, com a formação de 1819 (um mil oitocentos e dezenove) novos agentes. Foram firmados convênios de cooperação técnico-administrativa com 08 (oito) prefeituras pólos do Estado. Foram apoiadas 131 (cento e trinta e uma) iniciativas populares e institucionais e houve 170 (cento e setenta) trabalhos de integração da AEPT com atividades de outras entidades, assim distribuídos: 77 (setenta e sete) com Prefeituras, 37 (trinta e sete) com Instituições Estaduais, 05 (cinco) com Instituições Federais, 34 (trinta e quatro) com Organizações, Centros e Associações Comunitárias e 17 (dezessete) com Empresas e Sindicatos. Além disso, foram realizados encontros com líderes comunitários, líderes políticos, representantes de sindicatos, empresas, CSU’s, ligas, associações, colônias de pescadores, escolas, Universidade, comunidades de presidiários, Associação de Plantadores de Cana - AFEPLAN, dentre outros. O Programa Lazer na Escola, no mês de janeiro, conseguiu atingir 47.000 participantes.

A AEPT/DEFD/SEC também assessorou aos Núcleos Municipais de EPT, vinculados às Prefeituras Municipais, para a realização de convênios junto a SUEPT/SEED/MEC para a alocação de recursos financeiros. As Prefeituras mais assistidas foram as de Arapiraca, Palmeira dos Índios, Penedo, Santana do Ipanema, Girau do Ponciano, Marechal Deodoro, União dos Palmares e Viçosa.

Em 1984, alguns destaques foram dados pela imprensa escrita de Alagoas, tais como:

“Esporte Para Todos é tema de palestra para educadores. Abordando o tema formal, não formal na universidade, o coordenador do EPT da Secretaria da Educação e Cultura, Edison Valente, ministrou uma palestra, na manhã de hoje na UFAL, com o objetivo de discutir a aplicação da prática de atividades formais e não formais(...)”. (Jornal de Alagoas, de 15 de março de 1984).

“Arapiraca é destaque no EPT. Em 1984 a filosofia epetista ganhou maior adesão comunitária, com uma participação total do povo e das autoridades, segundo o Agente José Firmino. O que ali se verifica é uma grande luta de ação comunitária, mutirões, manhãs de lazer, caminhadas, treinamentos de agentes são os principais eventos. O domingo já é o dia oficial do lazer Arapiraquense. Em um dia de atividades epetistas, o povo de Arapiraca recolheu toneladas de lixo da cidade, pintou meio fio, limpou, construiu muro e restaurou uma escola em, apenas, um dia de atividades”. (Ver Jornal do EPT de abril de 1984).

“Algaroba também tem seu dia! No próximo dia 08 de abril de 1984 serão distribuídas cento e dez mil mudas de algaroba, a planta que no período de dois anos minimizará os problemas da seca do sertão, pois a mesma além de sobreviver às dificuldades climáticas, irá reflorestar a região, servindo de proteção e trazendo a umidade ao solo e com outras utilidades alimentares. O EPT estará nessa luta!”. (IDEM)

“Penedo, beleza arquitetônica do passado, às margens do Rio São Francisco, viveu momentos de muita integração e alegria, quando em janeiro último realizou o I Festival de Tradições Populares. O evento foi composto de atividades esportivas, recreativas e comunitárias onde, na ocasião, foi constatada uma grande integração de entidades e uma mobilização de todos os segmentos sociais, num clima de verdadeira harmonia”. (IDEM).

Marechal Deodoro, berço do Proclamador da República, com grande acervo histórico, tombado pelo patrimônio nacional (...), realizou, no período de 12 a 15 de abril o seu I Festival de Verão que contou com grande número de turistas (...) numa variada oferta de atividades esportivas, shows folclóricos, musicais, feira de artesanato (...) a arte, a cultura e o lazer integraram a comunidade durante o evento”. (IDEM).

“Caminhada Epetista mobiliza o Agreste. O ponto culminante (...) foi a I Caminhada da Integração entre os municípios de Arapiraca e Girau do Ponciano, com adesão de Lagoa da Canoa. (...) A largada aconteceu as 4h40 da Praça das Cacimbas, num itinerário de 26 km, a pé, com uma participação de mais de mil pessoas (...)”. (Ver Jornal de Alagoas de 13 de março de 1984).

De acordo com o relatório da AEPT/DEFD/SEC/AL e com as experiências vivenciadas em cada região de Alagoas, as ações da Assessoria de EPT foram tão intensas, entre o período de 1983 a 1985, “que a própria DEFD/SEC/AL não conseguiu acompanhar o seu ritmo, isto é, não apresentou uma estrutura sólida para que os resultados desse trabalho fossem muito mais concretos(...)”. Apesar de todo o empenho do Diretor Roberval Moura Barros, a AEPT parecia ser mais uma diretoria à parte da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Alagoas, do que uma Assessoria da DEFD/SEC.

Em 1986, os Professores Edison Francisco Valente e Márcia Chaves Valente concluíram o Curso de Especialização em Esporte Para Todos, em Santa Maria-RS, coordenado pela UFSM, com os trabalhos monográficos: “Esporte... Para Todos: conceitos e preconceitos” e “Recreação: um discurso teórico-prático do Esporte Para Todos”.

O ano de 1988 marca simultaneamente a culminância da atuação e a desativação da Rede EPT. Nesta ocasião, já não funcionavam a revista e o programa de rádio, mas o Congresso Nacional votou a inclusão, na Constituição Federal, de mais um direito dos cidadãos brasileiros: o das práticas de “esporte não formal”, que assim se nivelava à educação, saúde, descanso remunerado do trabalhador, habitação, dentre outros. Foi, também, a desativação da Rede Estadual de Esporte Para Todos de Alagoas.

Na verdade houve uma desativação do EPT enquanto um programa institucional assumido, até então, pelo Governo brasileiro. Na verdade foi um planejamento previsto para dez anos, no nível nacional, no entanto, nos níveis locais, o programa continuou independente da marca “Esporte Para Todos”.

Hoje, o Esporte para Todos existe no Brasil por expressão cultural ou iniciativas de intervenção, ambas de ocorrência local ou por programas de alcance nacional desenvolvidos pela iniciativa privada sem relações entre si, todos com denominações e conceitos próprios. Como não há uma organização nacional que acompanhe tais atividades descentralizadas de esporte não formal, são desconhecidos os resultados globais dessas manifestações. Já do lado dos programas nacionais, como aconteceu no Estado de Alagoas, os resultados quantitativos foram auspiciosos e se incluem entre os mais importantes do mundo na área do EPT.

Atualmente com o aumento da violência urbana galopante, pergunta-se por que não reativar esse tipo de programa para a prevenção contra a doença, o estímulo à manutenção da saúde e a qualidade de vida com práticas saudáveis por todos os segmentos da população, o combate à violência urbana com a ocupação dos tempos ociosos na cotidianidade? Por que não estimular um programa que deu certo no Brasil e que ainda continua dando certo em vários países do mundo? São concepções que se vincula, aos bens culturais, novos estilos de vida e de organização social, criando uma nova percepção de tempo e de vida - no trabalho, no lazer e onde estivermos - recusando, do cotidiano, tudo o que há de mais repetitivo, monótono e banal em prol da melhoria da qualidade de vida do cidadão, atributos esses os quais são adquiridos por um aprendizado constante no cotidiano social.